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quarta-feira, 4 de março de 2009

Lágrimas ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,

Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
...
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca


segunda-feira, 2 de março de 2009

Mia Couto

Hoje deixo-vos com Mia Couto, mais um dos meus poetas do coração...

Poema da despedida
0
Não saberei nunca
dizer adeus
0
Afinal,
só os mortos sabem morrer
0
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
0
Talvez o amor,
neste tempo, seja ainda cedo
0
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
0
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
0
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
0
Mia Couto, Abril 1984

domingo, 20 de julho de 2008

Gosto e Desgosto


Sempre que gosto
de alguém
gosto e desgosto
de mim
fico ao contrário
do mundo
dos apaixonados
ao contrário de tudo,
de todos ... até de mim .
***
Guardo no meu armário
dos sonhos
certos pesadelos
sem nexo
olho-me num espelho
convexo
remexo na gaveta
das recordações
abro um velho livro,
e arrepio-me ao tocar
no pó duma borboleta
morta pelo ciúme
de um amante tresloucado.
***
Ouço ao longe, vagamente
o queixume de algo
ou alguém
que mal diviso mas pressinto
distante a sirene de um barco
apita longamente um aviso
de uma vaga mais alterosa.
A Sul.
***
A maresia da madrugada
que ficou presa nos meus cabelos
secou ao vento agreste
que agitou o mar azul
soprando de forma poderosa
e num lamento sem fim
se acercou de mim
vindo de leste.
***
Palavras ternas e amargas
outrora ditas e escutadas
certas ou erradas
ecoam em mim
ora em poemas de doçura
ora em pensamentos de desvario
fazendo-me pensar
que o amor tanto pode ser poema
ou algema
tornando tão difícil o amar.
transformado em folhetim de ternura
ou em cruel sepultura
de desejos sufocados
por eternos enamorados.
***
Assim
sempre que gosto
de alguém
gosto e desgosto
de mim
ficando apenas só
comigo ... no fim!


Para o meu amigo R.C.