domingo, 2 de setembro de 2007

À Minha Avó Maria


Sei que o mundo é mesmo assim.
Egoísta, fechado sobre si mesmo, cego e surdo ao que não lhe convém ver nem ouvir.
Claro que há excepções. Pois há, como tudo na vida.
Como dizia a minha querida avó quando eu me irritava com as injustiças que via à minha volta - " ... sei que sofres filha mas, desde que o mundo é mundo que há diferenças, enquanto riem uns outros choram, enquanto uns se empaturram outros passam fome, frio, sofrem. Quem está bem esquece-se de olhar para o lado, estender uma mão com um pedaço de pão ou uma laranja para um pedinte ou para uma criança com fome. Eu nunca fui assim, mas existem pessoas que ignoram todos aqueles que lhe batem à porta, eu não tenho nada mas sempre procuro ver, no fundo de uma arca ou de um armário se encontro qualquer coisinha. Se nada encontro para lhes dar que lhes mate a fome ou o frio, partilho com eles um sorriso triste ou uma lágrima furtiva. Da minha porta ninguém sai com as mãos a abanar.".


Pois não avó, disso eu sempre fui testemunha. Sempre foste uma mulher excepcional. Trabalhaste desde criança, apanhaste chuva, frio e um sol inclemente pelos campos deste nosso Alentejo que tanto amaste, que eu tanto amo, Nunca tiveste tempo para ir à escola aprender a ler e como a maioria das mulheres da tua época tiveste os filhos em casa, pondo a tua vida e a deles em risco.Também eles tiveram que começar a trabalhar muito cedo, fazendo com que os teus olhos se turvassem de tristeza.


Sempre foste uma mulher corajosa, que arregaçava as mangas para ombrear com o seu homem, no arranjo do sustento para si e para os filhos. À medida que os netos começaram a chegar tu crescias desmedidamente, inchada de ternura e de amor. A melhor recordação que tenho de ti? Tantas!


A mais importante é a lembrança do teu sorriso, não um sorriso qualquer mas sim um sorriso que começava nos lábios, inundava o teu rosto de luz e tomava posse dos teus olhos. Sim, quando sorrias os teus olhos castanhos cor-de-mel sorriam, como eu nunca vira mais nenhuns sorrirem. Tenho saudades tuas, sabes isso. Tenho saudades do teu abraço, do refúgio no teu regaço quente, do cheiro a leite, mel e flores frescas que aspirava da tua pele. Sei que estás bem. E sei igualmente que embora cruel, egoísta e perigoso o mundo em que vivo também tem coisas boas, porque albergou no seu seio pessoas como tu querida avó. Fazes-me tanta falta...

Para ti nem todos os beijos e abraços são suficientes, recebe apenas aqueles que puderes.



1 comentário:

Jorge P. Guedes disse...

Bonito! Sentido! Genuíno!

Um abraço.